Postagem em destaque

Projetos mais ousados para reconstruir o telhado da Notre-Dame

http://br.rfi.fr/franca/20190503-veja-os-projetos-mais-ousados-para-reconstruir-catedral-notre-dame

Total de visualizações de página

terça-feira, 12 de outubro de 2010

DE OLHO NO VESTIBULAR



Pintor e escritor francês, Francis Picabia

( 1879 - 1953 ) foi uma das figuras mais importantes do movimento Dadaísta.

                                                    
Dissertação - Tipo de texto geralmente pedido nos vestibulares – Texto argumentativo. Ao escrevê-lo, o aluno deve tomar posição diante do tema proposto, fundamentando sua opinião com argumentos consistentes.


Principais Características do Texto Dissertativo :


1. Não utiliza a primeira pessoa.

2. A linguagem deve ser formal (a não ser quando

se tratar de tema que possibilite o coloquialismo).



3. Apresenta argumentos que buscam sustentar uma tese (posição que o autor assume diante do tema).

4. Divide-se em introdução, desenvolvimento e conclusão.


INTRODUÇÃO - ( Parágrafo breve – de 4 a 6 linhas para um texto de, no máximo, 30 linhas).


Apresentação da tese a ser defendida no texto.

Tipos de introdução:



A introdução pode começar de diversas maneiras:

• uma afirmação;

• uma enumeração;

• uma narração;

• uma declaração;

• uma pergunta.

Evitar idéias gerais que não se relacionem com o texto.


DESENVOLVIMENTO (de dois a três parágrafos - para um texto de, no máximo, 30 linhas).
Apresentação dos argumentos que vão fundamentar a idéia principal, que pode vir especificada através:
• de pormenores;

• de ilustração;

• de prós e contras;

• de pontos positivos e negativos;

• de dados estatísticos; de causas e consequências;

• de pesquisas;

• da ordenação cronológica; da interrogação;

• da citação.


CONCLUSÃO (um parágrafo- que deve ser maior do que a introdução e menor do que o desenvolvimento).



• Retoma a tese proposta na introdução.

• Pode-se começar com “portanto”, “assim”, “logo”... ou entrar diretamente no assunto ( o que, na minha opinião, deixa o texto mais bonito e estiloso).

• Não deve apresentar novos argumentos.

• Pode e deve conter uma solução para um problema proposto.

• Dependendo do tema, deve-se passar uma perspectiva de futuro.


Obs.: Uma boa revisão agregará pontos ao texto.


Professora: Maria Cristina A. Biagio

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Famigerado

Famigerado
Guimarães Rosa

Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.

Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.

Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.

Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:

"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."


Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.

— "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."


Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:

— "Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado..."

Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.

O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, inseqüentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava: E, pá:

— "Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-megerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?

Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?
— "Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."
Se sério, se era. Transiu-se-me.

— "Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?"

Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:

— Famigerado?

— "Sim senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:

— "Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho..."
Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
— Famigerado é inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...
— "Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"
— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...
— "Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?"
— Famigerado? Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...
— "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"
Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:
— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...
— "Ah, bem!..." — soltou, exultante.
Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — "Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição..." — e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d'água. Disse: — "Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!" Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: — "Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não..." Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — "A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca..." Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 13, cuja compra recomendamos.

www.releituras.com

Tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".

A Terceira Margem do Rio

A Terceira Margem do Rio
Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.



Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32, cuja compra e leitura recomendamos.

© Projeto Releituras — Todos os direitos reservados. O Projeto Releituras — um sítio sem fins lucrativos — tem como objetivo divulgar trabalhos de escritores nacionais e estrangeiros, buscando, sempre que possível, seu lado humorístico,
satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior. ® @njo



www.releituras.com

domingo, 28 de março de 2010

Considerações sobre a redação

Considerações sobre a redação
"Redação é treino e a gente só aprende a escrever, escrevendo".

I. Apresentação visual da redação/estética
* Centralizar o título na primeira linha, sem aspas e sem grifo. Letra maiúscula na letra de todas as palavras, exceto os monossílabos em geral (preposições, pronomes e outros), ou letra maiúscula só na primeira palavra. Exemplo:
O Poder da Palavra
Ou
O poder da palavra
* Pular uma linha entre o título e o texto, para então iniciar a redação (Exceto quando não houver esse espaço – formulários).
* Fazer parágrafo distanciando mais ou menos três centímetros da margem e mantê-los alinhados. (Não ultrapassar a margem e nem deixar de atingi-la).
* Não rasurar, ao errar, faça como o exemplo: erro.
* Apresentar letra legível. A letra de forma é aceita, o que não se aceita é mistura de maiúscula e minúscula.
II. Conteúdo
* Adequação do título ao conteúdo do texto.
* Adequação da mensagem.

Narração: deve haver sequência organizada dos fatos, criatividade, interação de personagens.

Descrição: deve ser baseada na percepção das coisas, características.

Dissertação: defesa de uma tese – de uma ideia – para fazer uma boa dissertação é preciso conhecer o assunto. Deve-se evitar o posicionamento na primeira pessoa do singular (eu), se não conseguir escrever de forma impessoal, o aluno poderá se posicionar utilizando a 1ª pessoa do plural (nós).

III. Linguagem
* Deve ser clara, nítida e precisa.
* Deve se diferenciar da linguagem falada, evitando chavões, vícios e modismos.
* Não é admitido o uso de gírias, nem entre aspas, assim como palavrões e neologismos a não ser quando se tratar de narrativas que representem a fala e o pensamento direto da personagem.
* Deve haver coerência e coesão. Coerência é a relação lógica entre as várias idéias que compõem um texto, enquanto que a coesão é a ligação existente entre as idéias, feita através de conectivos apropriados, como conjunções, pronomes e artigos.
IV. Gramática
* Escrever com concordância frases claras e completas.
* Escrever e acentuar corretamente as palavras.
* Empregar corretamente o travessão e demais sinais de pontuação.
V. Estrutura
* Aceitar-se-á somente construção em prosa (construção em forma de parágrafos), a não ser quando for solicitado.
* No mínimo, 3 parágrafos (introdução – desenvolvimento – conclusão) e no máximo, 6 parágrafos. Observar sempre o número de linhas para não ter o texto zerado.

O texto é analisado de acordo com a Forma (4,0) e o Conteúdo (6,0).

Narração - Vivência - Narrar é contar um ou mais fatos (reais ou fictícios), que aconteceram em determinado tempo e lugar, envolvendo personagens.

Descrição – cinco sentidos - “Descrever é pintar um quadro com palavras.”
Dissertação – argumentos - Dissertar é argumentar sobre um determinado assunto.

Dica: Não tenha preguiça de reescrever seus textos, nem de começar outro texto.

Professora: Maria Cristina A. Biagio

segunda-feira, 8 de março de 2010

O Falso Mentiroso - Resenha

O Falso Mentiroso
Por Maria Cristina A. Biagio
O falso mentiroso, de Silviano Santiago, foi publicado no Rio de Janeiro, em 2004, pela Editora Rocco, contendo 222 páginas. Entre as obras do autor,  estão os romances Uma história de família, Viagem ao México e De cócoras, Em Liberdade e Stella Manhattan, as coletâneas de ensaio Uma literatura nos trópicos e Nas malhas da letra e o livro de contos Keith Jarrett no Blue Note.
Silviano Santiago é escritor e crítico literário. Mora no Rio de Janeiro e por três vezes recebeu o Prêmio Jabuti nas categorias de romance e conto.
O Falso Mentiroso é um livro curioso, a começar pelo título, que provoca o leitor, pode-se dizer até que o texto começa pelo título, que é nada mais é do que um paradoxo. Ao procurar a contracapa o leitor se depara com os dizeres:

“O falso mentiroso: paradoxo atribuído a Euclides de Mileto (século IV a.C.), cuja forma mais simples é: se alguém afirma “eu minto”, e o que diz é verdade, a afirmação é falsa; e se o que diz é falso, a afirmação é verdadeira e, por isso, novamente falsa.” (Enciclopédia Mirador)

A citação reforça o lado paradoxal do romance, que logo no início traz as palavras do próprio narrador “Posso estar mentindo. Posso estar dizendo a verdade”. Tem-se a nítida sensação de estar ouvindo o próprio Silviano Santiago, mas é Samuel quem fala. Seria Samuel uma máscara do próprio Silviano Santiago? A leitura da biografia do autor, mostra que ele perdeu sua mãe quando tinha um ano e meio de idade; morte no parto do irmão mais novo, e, esse fato é um dado fundamental na sua biografia (como o próprio autor já declarou em entrevistas).
Quando Samuel fala da ausência de pais, de não ter sido abraçado, amamentado e ninado por sua mãe, de não ter aprendido a sofejar uma única canção de ninar aos seus próprios filhos, se é que eram seus, pois ele não tem certeza, é com grande pesar que vai narrando os fatos. Samuel não é filho de Donana e, talvez, nem de Eucanaã, foi comprado na maternidade, portanto ele não é filho natural nem adotivo, quem é Samuel? Que máscaras ele usa?
Poder-se dizer que ele é um ser fragmentado, há um desdobramento do eu, ao mesmo tempo singular, plural (HUTCHEON, 1991, p. 207), mas pode-se ir mais longe, pode-se dizer que esse ser fragmentado, carrega em si o complexo de Édipo.
Freud, em seus estudos sobre o inconsciente, traça um paralelo entre a história de Édipo Rei, da antiga Grécia e a formação da psique humana. No modelo de Édipo, criado por Freud, a busca do prazer é representada pelo desejo com relação à mãe e a sua negação é representa pela figura do pai, que detentor do poder, tem a capacidade de afastar a criança da mãe, o que, inevitavelmente, acabaria por gerar uma disputa entre os dois.
No livro, observa-se que a relação entre o complexo de Édipo e o narrador se dá na maneira como ele se relaciona com as questões que envolvem a sexualidade. A carência sexual e psicológica é estendida ao campo da linguagem através de uma linguagem pornográfica, principalmente, quando narra as aventuras amorosas do pai, exagerando no grotesco e no ridículo da situação.
Ao falar sobre o relacionamento do pai com Tereza e da forma como tudo acabou, Samuel comenta que Tereza tinha feito cinco abortos e isso a livraria de ser sua mãe, mas ao mesmo tempo, questiona o porquê dos presentes recebidos e do tratamento a ele dispensado. Teria sido ele trocado por uma quitinete na Lapa? Teria sido Donana tão compreensiva e compassiva com a amante do marido? Quando o leitor acredita que o narrador vai finalmente revelar que encontrou sua verdadeira mãe, ele mais uma vez se livra da responsabilidade e prossegue a narrativa, mudando de assunto. Observa-se, no entanto, que a ausência de ascendência familiar sólida é o que dá um certo ar de suspense à narrativa e através desse suspense, encontramos o pretexto para as suas reflexões. Outras possíveis mães surgiriam.
Outra característica bastante intensa do narrador é o fato de ele ser um observador da vida dos familiares e, mais assiduamente, da vida do pai. Era Samuel uma testemunha silenciosa, que a tudo fiscalizava, escutava as conversas telefônicas e armazenava todas as informações. Quando descobre as mentiras do pai falso, como ele o tratava, uma figura digna de um anti-herói, devido a sua esperteza, assiste ao seu fracasso e tenta desesperadamente superá-lo, o que acontece, pois ele alcança o sucesso e a estabilidade financeira, apesar de ser um artista falsário.
Ao mencionar a doença do pai e a questão do suicídio, coloca-nos diante da fala do pai:
“que filho porra nenhuma! Um bastardo que a gente encontrou na rua. À míngua de água, comida e carinho. Um bastardo que cultua a figura de Alexander Fleming não merece a mínima consideração do fabricante de camisinhas-de-vênus. Ao inferno com ele!” (SANTIAGO, 2004, p. 129)

Diante disso, a constatação “ e ainda me perguntam por que eu sou triste!”
Com relação à Donana, o curioso é que o narrador não quer saber qual é o seu papel nessa história, seria doloroso demais saber que ela também era uma mentira, a memória de sua professora no jogo das máscaras, permaneceria intacta.
Com relação ao título do livro, o próprio narrador vai explicando sua história, “Sou um falso mentiroso. A arquitetura era mentira piedosa para o papai. A advocacia, para ela. Duas mentiras, duas falsas afirmações de vida. Nem arquiteto nem advogado. Uma terceira escolha galopava sem montaria no lombo das duas mentiras”.
Ao final do livro, constata-se o jogo de máscaras e “a ironia parece ser um grande mecanismo retórico para despertar a consciência do leitor para esta dramatização”. (HUTCHEON, 1989, p. 47) Silviano Santiago utilizando a estratégia da metanarrativa, surpreende pelo final inesperado. O resto, como diria o próprio Samuel, é pa-ra-rá, pa-ra-rá, pa-ra-rá.

Referências Bibliográficas:
HUTCHEON, L. Uma teoria da paródia: Ensinamento das formas de arte do século xx. Tradução Tereza L. Peres. Lisboa: Edições 70, 1985.
SANTIAGO, SILVIANO. O Falso Mentiroso. Rio de Janeiro, : Rocco, 2004.

Lista de livros - UFSC/2011

Vestibular UFSC/2011

Autor

Obra

Editora

1. João Guimarães Rosa

Primeiras Estórias

Nova Fronteira

2. João Cabral de Melo Neto

Morte e Vida Severina

Nova Fronteira

3. Dias Gomes

O Pagador de Promessas

Bertrand/Ediouro

4. Cristovão Tezza

O Filho Eterno

Record

5. José de Alencar

Iracema

Diversas Editoras

6. Graciliano Ramos

Vidas Secas

Diversas Editoras

7. Lausimar Laus

O Guarda-Roupa Alemão

UFSC/Lunardelli

8. Luis Fernando Verissimo

Comédias para se Ler na Escola

Objetiva



OBSERVAÇÕES IMPORTANTES:
a) Recomenda-se a leitura integral das obras.
b) O conhecimento dessas obras supõe capacidade de análise e interpretação de textos, bem como o reconhecimento de aspectos próprios aos diferentes gêneros.
c) Entende-se que é necessário conhecer também o contexto histórico, social, cultural e estético de cada obra.